Morgado de Fafe

O Morgado de Fafe, personagem literária consagrada na obra camiliana, demanda uma atitude proativa perante o mundo. A figura do rústico morgado minhoto marcada pela dignidade, honestidade, simplicidade e capacidade de trabalho, assume uma contemporaneidade premente. Nesse sentido este espaço na blogosfera pretende ser uma plataforma de promoção de valores, de conhecimento e de divulgação dos trabalhos, actividades e percurso do escritor, historiador e professor minhoto, natural de Fafe, Daniel Bastos.

sábado, 14 de março de 2026

Daniel Bastos apresenta na Califórnia obra de homenagem à emigração portuguesa

No arranque de abril, o historiador da diáspora Daniel Bastos realiza um ciclo de apresentações na Califórnia, estado norte-americano com a maior concentração de população de origem portuguesa, para dar a conhecer a obra Monumentos ao Emigrante – Uma Homenagem à História da Emigração Portuguesa.
O livro, bilingue em português e inglês, concebido em parceria com o fotógrafo Luís Carvalhido e baseado num levantamento exaustivo dos monumentos de homenagem ao emigrante existentes em todos os distritos de Portugal continental e nas Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores, será apresentado em importantes centros da diáspora portuguesa na Califórnia. O ciclo de apresentações percorrerá, no arranque de abril, a Casa dos Açores de Hilmar, situada no Vale de San Joaquin, região amplamente reconhecida como berço e coração da açorianidade na Califórnia, o Consulado-Geral de Portugal em São Francisco, uma das mais importantes cidades dos Estados Unidos, e o Museu Histórico de São José, instituição dedicada à preservação e valorização da herança cultural luso-californiana. A 6 de abril, a obra será ainda apresentada no Portuguese Historical Center, em San Diego, espaço incontornável da memória histórica e identitária da comunidade luso-americana na segunda maior cidade do estado da Califórnia. O ciclo de apresentações culmina a 8 de abril, às 19h00, na Portuguese Organization for Social Services and Opportunities (POSSO), instituição de referência ao serviço da comunidade luso-americana na cidade de San José, que assinala este ano o seu 50.º aniversário. Prefaciada pelo ensaísta e professor universitário Onésimo Teotónio Almeida, a obra é apresentada na sequência de um convite endereçado ao autor por diversas personalidades e instituições da comunidade luso-americana da Califórnia, entre as quais o comendador Manuel Eduardo Vieira e o comendador Batista Vieira, cujos percursos empreendedores e beneméritos se encontram reconhecidos, respetivamente, com uma estátua e um busto nas ilhas açorianas do Pico e de São Jorge. Associam-se igualmente à iniciativa o comendador Manuel Bettencourt, conselheiro das comunidades portuguesas, Idalmiro da Rosa, cônsul honorário de Portugal em San Diego, bem como as entidades anfitriãs das diferentes sessões. Realizado com o apoio institucional da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas e da Sociedade de Geografia de Lisboa, o livro constitui um itinerário pela memória da emigração portuguesa. Ao percorrer mais de uma centena de monumentos, entre bustos, estátuas e memoriais dedicados ao emigrante e distribuídos por todo o território nacional, a obra evidencia as motivações da partida, os principais destinos migratórios, a consagração de figuras de relevo nas comunidades e as dinâmicas da memória coletiva. Particular destaque é conferido à emigração para os Estados Unidos da América, país onde residem atualmente mais de um milhão de luso-americanos, reconhecidos pelo seu nível de integração, espírito empreendedor e contributo económico e sociopolítico. Neste contexto, a numerosa comunidade portuguesa da Califórnia, superior a 300 mil pessoas, maioritariamente de origem açoriana, assume especial relevância pelo papel que tem desempenhado no desenvolvimento tanto das terras de acolhimento como das regiões de origem. Autor de várias obras dedicadas à história da emigração portuguesa, Daniel Bastos tem desenvolvido um percurso de investigação e de intervenção cívica profundamente enraizado na diáspora, mantendo um contacto regular com as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo através de conferências, apresentações públicas e colaboração na imprensa internacional de língua portuguesa.

sexta-feira, 13 de março de 2026

POSSO: meio século ao serviço da comunidade portuguesa na Califórnia

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se adensou entre o primeiro quartel do século XIX e o último quartel do século XX — período em que se estima terem emigrado cerca de meio milhão de portugueses, maioritariamente oriundos dos arquipélagos nacionais, em particular dos Açores — destaca-se atualmente pela sua plena integração, pelo reconhecido espírito empreendedor e pelo relevante papel económico e sociopolítico que desempenha na principal potência mundial. Atualmente, segundo dados dos mais recentes censos norte-americanos, residem nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos, concentrados sobretudo nos estados de Massachusetts, Rhode Island, Nova Jérsia e Califórnia. É precisamente neste último estado que vive e trabalha a maior comunidade luso-americana do país, constituída por mais de 300 mil pessoas. A presença portuguesa na Califórnia remonta à centúria oitocentista, associada à corrida ao ouro, à dinamização das atividades ligadas à pesca da baleia e do atum e, posteriormente, ao desenvolvimento da agropecuária. Essa presença secular manifesta-se hoje numa densa rede de associações, clubes, paróquias, organizações cívicas e núcleos museológicos que preservam a memória e dinamizam a vida comunitária. No plano do associativismo social, destaca-se de forma particular a Portuguese Organization for Social Services and Opportunities (POSSO), uma instituição de referência ao serviço da comunidade luso-americana na cidade de San José.
Fundada em 1976, em San José — cidade que concentra uma relevante comunidade portuguesa da Califórnia e uma das mais expressivas dos Estados Unidos —, a Organização Portuguesa para Serviços e Oportunidades Sociais nasceu com o objetivo de melhorar a qualidade de vida e ampliar as oportunidades das populações de língua portuguesa. Prestes a assinalar meio século de atividade, celebrando o seu 50.º aniversário no próximo dia 28 de março, esta prestigiada instituição sem fins lucrativos consolidou-se como uma verdadeira ponte de solidariedade no seio da comunidade luso-californiana. Ao longo das últimas décadas, tem desenvolvido um conjunto diversificado de iniciativas de caráter social, cultural, recreativo e educativo, que reforçam os laços comunitários e promovem a inclusão social. Entre essas iniciativas assumem particular importância, numa época em que se verifica um progressivo envelhecimento da comunidade portuguesa na América — acentuado pela diminuição dos fluxos migratórios provenientes de Portugal —, os programas dirigidos aos seniores luso-americanos. Muitos deles vivem hoje confrontados com problemas de saúde, solidão, ausência de retaguarda familiar ou dificuldades linguísticas. Neste contexto, a POSSO desenvolve um conjunto relevante de programas de acompanhamento e apoio domiciliário, que incluem serviços de agendamento de consultas, transporte, tradução e interpretação, bem como apoio em matérias administrativas e fiscais. Paralelamente, promove diversas iniciativas orientadas para o bem-estar, a nutrição e a vida ativa dos idosos, como a distribuição de alimentos, a confeção de refeições, a medição da pressão arterial, a realização de rastreios médicos e a organização de oficinas de saúde. Como assinala o estudo sociológico A Emigração Portuguesa no Século XXI, entre 2001 e 2011 a percentagem de idosos entre os emigrantes portugueses residentes nos EUA aumentou sete pontos percentuais, passando de 16% para 23%. O alcance e a eficácia deste trabalho resultam, em grande medida, da generosidade e do espírito de voluntariado que continuam a caracterizar a comunidade portuguesa em San José. Um espírito solidário que constitui, simultaneamente, um sinal de respeito pelo legado das gerações pioneiras, de confiança no presente e de esperança no futuro da comunidade luso-californiana. Graças a esse empenho coletivo, a missão, visão e valores da POSSO estendem-se também a outras comunidades que integram o mosaico multicultural da Califórnia. Importa ainda sublinhar que a ação da POSSO não se limita à dimensão social. A instituição tem igualmente desempenhado um papel relevante na valorização da cultura e da língua portuguesas, nomeadamente através da promoção do ensino do português e do apoio a iniciativas culturais que reforçam a ligação identitária das novas gerações às suas raízes. Ao celebrar cinquenta anos de existência, a POSSO afirma-se, assim, como um exemplo paradigmático do dinamismo associativo da diáspora portuguesa e da sua capacidade de mobilização em torno de valores de solidariedade, cidadania e participação cívica. Mais do que uma instituição de apoio social, a POSSO tornou-se um espaço privilegiado de organização comunitária e de afirmação cultural, onde os membros da comunidade não são meros beneficiários de serviços, mas protagonistas ativos na defesa dos seus direitos e na construção de melhores condições de vida. Num mundo cada vez mais interligado, o percurso da POSSO recorda-nos igualmente o papel estratégico da diáspora na projeção internacional de Portugal. Ao longo de meio século, esta instituição tem contribuído para fortalecer os laços entre Portugal e a Califórnia, afirmando a presença portuguesa como uma realidade dinâmica, empreendedora e solidária no espaço norte-americano. Celebrar os 50 anos da POSSO é, portanto, celebrar também a história, o trabalho e a resiliência de gerações de emigrantes portugueses que, longe da sua terra natal, souberam construir comunidades coesas, afirmar a sua identidade cultural e projetar o nome de Portugal no mundo.

domingo, 8 de março de 2026

Norberto Aguiar: um rosto incontornável do jornalismo português em Montreal

Uma das marcas mais características das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é, indubitavelmente, a sua notável capacidade empreendedora. Tal realidade é amplamente confirmada pelas trajetórias de inúmeros compatriotas que, nas mais diversas geografias, criaram empresas de sucesso e assumiram funções de relevo nos planos cultural, social, económico, político e associativo. Entre os muitos exemplos de dirigentes associativos e promotores da cultura portuguesa na diáspora — hoje cada vez mais reconhecida como um ativo estratégico para a projeção internacional de Portugal — tem-se destacado, ao longo das últimas décadas, o percurso altruísta de Norberto Aguiar em prol da portugalidade, em geral, e da açorianidade, em particular, no Canadá. Natural da Lagoa, na costa sul da ilha de São Miguel, nos Açores, onde nasceu em 1954, Norberto Aguiar emigrou para o Canadá em 1975, deixando para trás uma promissora carreira futebolística no Clube Operário Desportivo. Partiu não apenas motivado pela presença dos pais no Quebeque, mas também pelo facto de aquela que viria a ser a sua companheira de vida — a também lagoense Anália, mãe das suas três filhas — ter entretanto emigrado para o país norte-americano.
O jovem casal estabeleceu-se em Montreal, a segunda maior cidade do Canadá, onde a comunidade portuguesa e lusodescendente deverá ultrapassar as 60 mil pessoas. Foi aí que Norberto Aguiar iniciou o seu percurso de emigrante, trabalhando numa fábrica têxtil, enquanto concluía os estudos secundários e aprofundava o conhecimento da língua francesa. No ocaso de 1982, regressou aos Açores, já com três filhas, motivado pelo sonho de retomar a carreira futebolística — que lhe valera a alcunha de “Loirinho do Operário” — e de gerir simultaneamente um projeto empresarial na área da restauração. Contudo, o regresso ao torrão arquipelágico revelou-se breve. Cerca de meio ano depois, o casal decidiu regressar ao Canadá, onde, no ano seguinte, fixaria definitivamente o seu projeto de vida. De volta a Montreal, Norberto Aguiar prosseguiu a sua formação e percurso profissional, aprofundando ao mesmo tempo a ligação à comunidade luso-canadiana. Através da dinamização de uma liga de clubes de futebol no Quebeque, reforçou a sua presença no movimento associativo, experiência que viria a conduzi-lo, nessa mesma época, ao mundo do jornalismo, assumindo funções na redação do jornal A Voz de Portugal. A partir de então, tornou-se uma voz inconfundível no panorama da imprensa de língua portuguesa em Montreal. Essa experiência e dedicação levariam a que, cerca de uma década mais tarde, assumisse o papel de editor e proprietário do jornal LusoPresse, publicação que, ao longo das últimas três décadas, se afirmou como um dos mais relevantes órgãos de comunicação social da comunidade portuguesa em Montreal. Num contexto frequentemente marcado por dificuldades estruturais — muitas vezes sem o devido reconhecimento das autoridades políticas dos países de origem ou de acolhimento — os jornais da diáspora sobrevivem, em grande medida, graças ao espírito de missão dos seus diretores, colaboradores, leitores e empresários mecenas. Não raras vezes confrontados com crises económicas e desafios financeiros, vários títulos desapareceram ao longo dos anos. Apesar dessas adversidades, o LusoPresse tem resistido e renovado o seu compromisso com a comunidade. Numa época em que vários jornais da diáspora portuguesa têm sucumbido, inclusive no Canadá, o periódico liderado por Norberto Aguiar constitui um exemplo genuíno de dedicação e serviço público. Através de uma informação de proximidade, constrói pontes entre a comunidade luso-canadiana, atenua a saudade e a distância, fortalece a identidade cultural e contribui para projetar Portugal — e, de modo muito particular, os Açores — na sociedade canadiana. Essa projeção tem sido amplificada na última década pelo trabalho de uma equipa dedicada, onde se destacam nomes como o diretor do LusoPresse, Carlos de Jesus, ou o professor Joaquim Eusébio, que fazem da missão jornalística uma verdadeira vocação ao serviço da comunidade. Para além da imprensa escrita, Norberto Aguiar tem igualmente desenvolvido um relevante trabalho no campo audiovisual, enquanto produtor, realizador e proprietário do programa televisivo semanal LusaQ TV, que tem levado a atualidade lusófona às casas de milhares de famílias em Montreal. Colaborador de diversos órgãos de comunicação social em Portugal e no Canadá, o jornalista lagoense tem sido também um incansável promotor do associativismo luso-canadiano e de múltiplas iniciativas ligadas à identidade e à memória da comunidade portuguesa. Entre elas, destacam-se projetos de promoção da açorianidade, como a implementação do Parque dos Açores, em Montreal, ou a geminação entre os municípios da Lagoa e de Sainte-Thérèse. Não por acaso, o seu percurso de vida, marcado pelo altruísmo e pela dedicação à comunidade, tem sido amplamente reconhecido. Norberto Aguiar foi já distinguido com a Medalha da Assembleia Nacional do Quebeque, com a Medalha da Câmara Municipal da Lagoa e com diversas homenagens no seio da comunidade portuguesa. Mais recentemente, no passado mês de fevereiro, foi agraciado com o “Prémio Portugalidade”, atribuído na XXI Gala do Jornal Audiência, em Vila Nova de Gaia, distinção que reconhece “a dedicação, a persistência e o facto de levar além-fronteiras a voz da diáspora portuguesa”. Um reconhecimento inteiramente justo para quem tem feito do jornalismo uma missão cívica ao serviço da comunidade, dando assim pleno sentido à célebre e intemporal visão de Victor Hugo: “A imprensa é a imensa e sagrada locomotiva do progresso.”

domingo, 1 de março de 2026

Casa dos Açores de Hilmar: um pilar da comunidade portuguesa na Califórnia

A comunidade lusa nos Estados Unidos da América (EUA), cuja presença no território se intensificou entre o primeiro quartel do século XIX e o último quartel do século XX — período em que se estima terem emigrado cerca de meio milhão de portugueses, essencialmente oriundos dos arquipélagos dos Açores e da Madeira — destaca-se hoje pela sua plena integração, inegável espírito empreendedor e relevante papel socioeconómico e cultural na principal potência mundial. Segundo os dados mais recentes dos censos norte-americanos, residem atualmente nos EUA mais de um milhão de luso-americanos. Só no estado mais populoso do país, a Califórnia, vivem mais de 300 mil, na sua maioria de origem açoriana. Muitos trabalham por conta de outrem, designadamente na indústria, embora sejam também numerosos os que exercem atividade no setor dos serviços ou se distinguem nas áreas científica e académica, nas artes, nas profissões liberais e na vida política. No seio das numerosas comunidades luso-americanas da Califórnia — o estado com maior concentração de diáspora portuguesa nos EUA — proliferam dezenas de associações recreativas e culturais, órgãos de comunicação social, clubes desportivos e sociais, fundações educativas, bibliotecas, grupos de teatro, bandas filarmónicas, ranchos folclóricos, casas regionais, sociedades de beneficência e instituições religiosas. Existem igualmente espaços museológicos que preservam e divulgam a herança cultural portuguesa, como o History San José e o Portuguese Historical Center. Entre as associações recreativas e culturais que mais têm contribuído, nas últimas décadas, para a dinamização da açorianidade e da portugalidade na Califórnia, destaca-se, de forma inequívoca, a Casa dos Açores de Hilmar, situada no Vale de San Joaquin, um dos mais tradicionais e relevantes polos da emigração portuguesa naquele estado. Fundada em 1977, a instituição assumiu, desde a sua génese, como objetivos centrais o fortalecimento da identidade e da memória cultural açoriana, em particular, e portuguesa, em geral, através da música, do desporto, da literatura e da recriação de tradições religiosas, como as celebrações do Espírito Santo. Recentemente, a Casa dos Açores de Hilmar — membro do Conselho Mundial das Casas dos Açores — deu um passo decisivo para honrar o passado, valorizar o presente e projetar o futuro, com o lançamento da primeira pedra da sua nova sede. Trata-se de um espaço orçado em vários milhões de dólares, cuja empreitada foi oficialmente autorizada no final do mês de fevereiro e cuja conclusão está prevista para o final do próximo ano. O novo edifício funcionará como um moderno centro cultural multifuncional, apto a acolher festividades e uma vasta gama de iniciativas, como exposições, concertos, eventos literários, colóquios, programas intergeracionais, encontros sociais e celebrações comunitárias. Este passo constitui simultaneamente um sinal de confiança no presente e no futuro do associativismo luso-californiano, que enfrenta hoje desafios complexos, designadamente o envelhecimento dos seus quadros dirigentes. Com efeito, nas últimas décadas, a América do Norte — Estados Unidos e Canadá — deixou de ser destino prioritário da emigração portuguesa, o que tem repercussões naturais na renovação geracional das estruturas associativas. O futuro do associativismo luso-californiano, à semelhança do que sucede no restante espaço norte-americano, passará inevitavelmente pela diversificação das atividades de animação sociocultural, conciliando a matriz tradicional que sustenta o movimento associativo com novas expressões contemporâneas — como o cinema, a literatura, o design, a dança, o teatro ou a moda — capazes de mobilizar as gerações mais jovens de lusodescendentes, autênticos garantes da continuidade da presença portuguesa. Nesse contexto, a Casa dos Açores de Hilmar afirma-se como um exemplo paradigmático do caminho a trilhar. Nas recentes festividades carnavalescas promovidas pela associação, atuaram e desfilaram dezenas de crianças e jovens lusodescendentes nas áreas da música, do teatro e da dança, perante centenas de convidados e associados, revelando uma vitalidade que constitui motivo de legítima esperança quanto à preservação e renovação das tradições ligadas à açorianidade e à portugalidade na Califórnia.
O passado, o presente e o futuro da Casa dos Açores de Hilmar encontram expressão simbólica na conjugação de experiência e renovação que marca a sua liderança. De um lado, o jovem lusodescendente George Costa Jr., presidente da instituição; do outro, o seu vice-presidente, o comendador Manuel Eduardo Vieira, figura destacada da comunidade portuguesa na Califórnia. A articulação entre a energia transformadora da juventude e a memória acumulada de quem construiu o percurso associativo ao longo de décadas revela-se decisiva: é nesse diálogo intergeracional — entre inovação e experiência, entre continuidade e visão estratégica — que reside a garantia de um futuro sólido para a presença portuguesa na Califórnia e, mais amplamente, na América do Norte.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Diáspora portuguesa formaliza parceria estratégica e reforça ação social em França

Uma das marcas mais distintivas das comunidades portuguesas no estrangeiro reside na sua reconhecida capacidade empreendedora e no enraizado sentido de solidariedade e benemerência. Esta matriz identitária tem sido reiteradamente confirmada pelos percursos de inúmeros compatriotas que, a partir da diáspora, edificam empresas de sucesso e promovem iniciativas de elevado impacto económico, cultural e social, contribuindo simultaneamente para a projeção internacional de Portugal. Entre os empresários portugueses da diáspora — hoje crescentemente valorizados como ativos estratégicos na promoção externa do país — destaca-se o percurso do guardense João Pina, conhecido em França por Jean Pina, uma das figuras mais dinâmicas e solidárias da comunidade luso-francesa. Atualmente administrador do Grupo Jean Pina, sediado na região parisiense e constituído por seis empresas com atividade nos setores da construção civil, limpeza e reciclagem de resíduos, Jean Pina afirma-se como um dos mais relevantes empresários luso-franceses. Todavia, o êxito alcançado no plano empresarial tem sido, de forma consistente, acompanhado por um inequívoco compromisso social em prol dos mais vulneráveis, tanto em Portugal como em França. Esse compromisso ganhou expressão institucional em novembro de 2019, com a criação da Fundação Nova Era Jean Pina, cuja missão se sintetiza no lema “Solidariedade em Movimento”. Desde então, a Fundação tem desenvolvido uma ação estruturada e continuada de apoio social, promovendo projetos dirigidos a populações particularmente vulneráveis — idosos, crianças institucionalizadas, desempregados e famílias em situação de fragilidade — contribuindo para a coesão social e para a salvaguarda da dignidade humana nos dois países. Foi neste enquadramento que, no passado sábado, 21 de fevereiro, o presidente da Fundação celebrou um protocolo de colaboração estratégica com a Associação Soleils de Paris, que tem vindo a desenvolver um notável trabalho social junto de pessoas em situação de vulnerabilidade na capital francesa. Com uma intervenção centrada na ação social direta, a associação organiza, na última sexta-feira de cada mês, ações de rua que incluem a distribuição de refeições quentes, vestuário e bens essenciais em várias zonas de Paris.
A relevância do trabalho da associação — composta por cerca de vinte voluntários, entre os quais portugueses e lusodescendentes, e presidida pela jovem lusodescendente Eleonor Patrício — ganha particular significado à luz do contexto socioeconómico francês. Segundo dados divulgados pelo INSEE, em 2023 a taxa de pobreza em França atingiu 15,4%, o valor mais elevado desde 1996, sendo que na área metropolitana da Grande Paris os indicadores superam a média nacional. Trata-se de um cenário que exige respostas complementares às políticas públicas, envolvendo a sociedade civil organizada e o voluntariado. Neste contexto, a assinatura do protocolo entre a Fundação Nova Era Jean Pina e a Associação Soleils de Paris reveste-se de particular importância. Não se trata de um gesto meramente simbólico, mas da formalização de uma parceria estruturada, que garante previsibilidade, continuidade e enquadramento institucional ao apoio concedido. Através da oferta regular de donativos em espécie — designadamente bens alimentares, produtos de higiene e artigos de primeira necessidade — a Fundação reforça a capacidade operacional da associação, permitindo-lhe ampliar e consolidar a sua intervenção junto das populações mais vulneráveis. No próprio ato de assinatura do protocolo foram já entregues trinta sacos contendo bens alimentares e produtos de higiene e limpeza, que serão distribuídos pelos voluntários da associação a pessoas em situação precária, incluindo cidadãos em situação de sem-abrigo na capital francesa. Este primeiro gesto concreto evidencia a natureza pragmática e operacional da parceria agora estabelecida. Num país que acolhe uma comunidade portuguesa estimada em cerca de um milhão de pessoas — a maior da Europa e uma das mais expressivas comunidades estrangeiras em França — iniciativas desta natureza assumem um significado que ultrapassa o plano assistencial. Elas afirmam a maturidade cívica da diáspora portuguesa e a sua capacidade de organização, demonstrando que o sucesso empresarial pode e deve ser acompanhado por responsabilidade social. A celebração deste protocolo constitui, assim, um exemplo paradigmático do papel estruturante que a diáspora e os lusodescendentes desempenham nas sociedades de acolhimento, sem nunca romperem os laços com a pátria de origem. Ao mobilizar recursos, redes e capital humano em prol dos mais vulneráveis, a comunidade portuguesa projeta uma imagem de Portugal como nação solidária, empreendedora e universalista. Num tempo marcado por desigualdades persistentes e desafios sociais complexos, a ação concertada de fundações, associações e voluntários de matriz lusa reafirma que a diáspora não é apenas memória ou identidade: é também compromisso ativo, responsabilidade partilhada e construção concreta de pontes de solidariedade entre povos e territórios.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Chef Anthony Gonçalves: a cozinha portuguesa no topo de Nova Iorque

Uma das marcas mais distintivas das comunidades portuguesas espalhadas pelos quatro cantos do mundo é a sua reconhecida vocação empreendedora. Ao longo de décadas, inúmeros compatriotas têm afirmado percursos de sucesso, criando empresas sólidas e desempenhando funções de relevo nos planos cultural, social, económico e político. Entre os muitos exemplos de portugueses e lusodescendentes da diáspora — hoje amplamente reconhecidos como um ativo estratégico na promoção internacional do país — destaca-se o percurso inspirador do chef Anthony Gonçalves, genuíno embaixador da gastronomia portuguesa em Nova Iorque, uma das mais emblemáticas metrópoles dos Estados Unidos da América e do mundo. Filho de emigrantes naturais dos concelhos de Torres Vedras e do Sabugal, que partiram para os Estados Unidos na década de 1960, Anthony Gonçalves não frequentou qualquer escola formal de culinária. A sua formação construiu-se na prática e na vivência familiar, no Trotters Tavern, restaurante português da família em Nova Iorque, onde, desde tenra idade, despertou para a arte da cozinha, guiado pelo pai e pela avó, entre aromas, sabores e memórias que moldaram a sua identidade gastronómica. A paixão pela culinária foi posteriormente aprofundada em contextos de elevada exigência profissional, nomeadamente no Hotel Ritz-Carlton e nos restaurantes 42 e Bellota. Em 2016, assumiu a chefia do restaurante Kanopi, em Nova Iorque. Situado no 42.º andar da torre envidraçada do The Opus Westchester, Autograph Collection, hotel de luxo localizado no centro de White Plains, a pouco mais de meia hora de Manhattan, com vista panorâmica sobre o vale do Hudson, o Kanopi tornou-se, sob a sua liderança, numa autêntica embaixada da cozinha portuguesa em território norte-americano. Através de uma abordagem contemporânea e criativa da tradição gastronómica lusa, apoiado por uma equipa com fortes ligações a Portugal — e com o contributo pessoal de raízes familiares que se estendem também ao Algarve, terra natal da sua esposa — Anthony Gonçalves tem atraído uma clientela exigente e de elevado perfil, que inclui atletas da NBA, figuras do mundo da moda e personalidades da vida política. O menu de jantar é integralmente inspirado na matriz culinária portuguesa; diversos pratos dialogam com os sabores da lusofonia; e a carta de vinhos apresenta exclusivamente referências importadas de Portugal, reforçando a identidade inequívoca do projeto. A excelência, a visão estratégica e a fidelidade às raízes que o chef imprime ao Kanopi — constantemente renovadas através de visitas frequentes a Portugal — têm sido amplamente reconhecidas. O restaurante tem merecido destaque nas páginas do The New York Times, uma das mais influentes publicações internacionais, e Anthony Gonçalves foi, em 2023, semifinalista do prémio anual da Fundação James Beard, na categoria de “Melhor Chef” do Estado de Nova Iorque.
Em 2025, o Kanopi foi distinguido com o “Best Award of Excellence” atribuído pela revista Wine Spectator, no âmbito dos “Annual Restaurant Awards – The World’s Best Wine Lists”, que premeiam as melhores cartas de vinhos entre milhares de restaurantes avaliados a nível mundial. Este reconhecimento evidencia igualmente o trabalho de Danny Martins, sommelier e diretor de vinhos do Kanopi, natural de Coimbra e com ligações a Aveiro, responsável por uma carta com 395 referências, das quais 180 são portuguesas — uma das mais completas seleções de vinhos nacionais no setor da restauração nos Estados Unidos. Também em Portugal o mérito do chef foi assinalado. A Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal distinguiu, em 2024, Anthony Gonçalves com o prémio “Portugueses Lá Fora”, reconhecimento atribuído a profissionais que projetam a gastronomia nacional além-fronteiras e que contribuem para o prestígio internacional de Portugal. O percurso de Anthony Gonçalves demonstra, de forma inequívoca, como a cozinha portuguesa constitui hoje um instrumento privilegiado de diplomacia cultural e económica. Através do talento, da inovação e da fidelidade às suas raízes, o chef não apenas afirma a identidade gastronómica lusa num dos mercados mais competitivos do mundo, como também reforça o papel dos lusodescendentes enquanto protagonistas na construção de uma imagem moderna, qualificada e cosmopolita de Portugal. Na mesa do Kanopi, a tradição reinventa-se e transforma-se em narrativa de país. Cada prato servido, cada vinho português apresentado, cada referência à herança cultural comum traduz-se numa poderosa ação de promoção externa. É neste diálogo entre memória e contemporaneidade que a diáspora portuguesa encontra uma das suas expressões mais eficazes de afirmação internacional — provando que, onde houver talento e ligação às origens, Portugal estará sempre representado.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Aneclet Teixeira: empreendedor da diáspora madeirense e guardião da memória coletiva

A emigração constitui uma realidade intrínseca à identidade madeirense, marcando, desde o povoamento do arquipélago até à contemporaneidade, as suas dimensões sociais, culturais, económicas e políticas. A vasta diáspora da denominada “pérola do Atlântico”, estimada em cerca de 1,5 milhões de madeirenses e seus descendentes, transporta consigo, ao longo de gerações, tradições, valores e memórias para destinos tão diversos como a África do Sul, Austrália, Brasil, Canadá, Curaçau, Estados Unidos da América, França, Havai, Inglaterra e Venezuela. É precisamente neste último país da América Latina que se encontra radicada a maior comunidade emigrante madeirense, estimada em cerca de 300 mil emigrantes e descendentes, num universo aproximado de meio milhão de luso-venezuelanos. Trata-se de uma comunidade maioritariamente composta por naturais da Madeira que, apesar de nos últimos anos viver imersa numa profunda crise económica, política e social, tem persistido, desde a segunda metade do século XX, como um pilar estruturante do desenvolvimento urbano, económico e sociocultural da Venezuela. O relevante legado histórico da diáspora madeirense na pátria de Simón Bolívar encontra-se, desde o início da segunda década do século XXI, materializado na missão e visão do Museu da Família Teixeira, situado na Fajã da Murta, freguesia do Faial, concelho de Santana. Este espaço museológico foi idealizado pelo empreendedor e benemérito Aneclet Teixeira, emigrante de sucesso radicado em Caracas, onde, desde a década de 1980, impulsionou e consolidou as cadeias de lojas Rey David. O museu tem como principal desígnio homenagear e perpetuar a memória dos seus progenitores, Albino Teixeira e Conceição Caires, naturais da Fajã da Murta, que, à semelhança de milhares de conterrâneos, iniciaram, na década de 1950, uma trajetória migratória familiar rumo à Venezuela. Detentor de diversos investimentos na América Latina e no seu torrão natal, onde tem apostado de forma consistente nos sectores da hotelaria e do imobiliário, Aneclet Teixeira viu esse percurso reconhecido em 2021, quando, no âmbito das comemorações do Dia da Região e das Comunidades Madeirenses, foi distinguido pelo Governo Regional da Madeira com a Insígnia Autonómica de Bons Serviços. O empresário luso-venezuelano ergueu, na Fajã da Murta, um espaço museológico que alberga memórias, objetos, correspondência e fotografias da Família Teixeira, constituindo-se como um testemunho vivo da epopeia emigratória madeirense.
A profunda ligação ao arquipélago da Madeira e a notável visão empreendedora de Aneclet Teixeira têm-se materializado, nos últimos anos, num conjunto significativo de investimentos no sector da hotelaria e do turismo, numa região frequentemente distinguida como o melhor destino insular do mundo pelos World Travel Awards. Este contributo relevante para o crescimento económico, a criação de emprego e a geração de riqueza local, regional e nacional traduziu-se, em 2023, na inauguração, no centro do Funchal, do Barceló Hotels & Resorts. Trata-se de um empreendimento turístico de cinco estrelas, resultante de um investimento de várias dezenas de milhões de euros, assente na reabilitação de seis edifícios da baixa citadina, operado pelo grupo Barceló, e dotado de 111 quartos, ginásio, salas de reunião, restaurante à carta, restaurante buffet, lobby bar e rooftop bar BHeaven. Ainda nesse ano, o empreendedor e visionário luso-venezuelano, reconhecido pelo cultivo dos valores familiares e pela preocupação em perpetuar esse legado entre gerações, inaugurou o empreendimento Suites King David. Esta unidade de Alojamento Local, fruto de um investimento superior a cinco milhões de euros, é composta por 15 apartamentos das tipologias T0 e T1, totalmente equipados e com vista privilegiada sobre a Avenida do Mar, o porto e a baía do Funchal. Atualmente, Aneclet Teixeira encontra-se a concluir a reabilitação de uma casa centenária situada na Avenida do Infante, projeto que representa a concretização de um sonho profundamente ligado à memória saudosa dos seus filhos, Renny Xavier e Andrea Daniela, a quem dedica pública e sentidamente uma eterna homenagem. Esta intervenção constitui mais um relevante exemplo de reabilitação urbana de um edifício emblemático da cidade do Funchal, outrora devoluto, agora transformado na sua residência, rebatizada como King David Palace, numa alusão à marca que consolidou na Venezuela e difundiu por toda a América Latina. A moradia preserva a sua estrutura original, integrando elementos de calçada madeirense e portuguesa, e será enobrecida com o brasão da Família Teixeira, esculpido pelas próprias mãos do emigrante luso-venezuelano. Este gesto simbólico reflete, de forma eloquente, a capacidade empreendedora da diáspora portuguesa, que, ancorada numa profunda ligação às suas origens, investe ativamente no desenvolvimento do território pátrio. O percurso de Aneclet Teixeira constitui um exemplo paradigmático de como a emigração, longe de representar um afastamento definitivo, pode transformar-se numa poderosa ponte entre territórios, culturas e gerações. O seu contributo para a preservação da memória histórica da emigração madeirense, materializado no Museu da Família Teixeira, alia-se a uma intervenção decisiva no desenvolvimento da hotelaria, do turismo e da reabilitação urbana na Madeira, sectores estratégicos para a afirmação económica e cultural da Região Autónoma. Através do seu espírito empreendedor, do profundo apego às raízes e de uma visão que conjuga memória, identidade e modernidade, Aneclet Teixeira personifica o papel fundamental da diáspora portuguesa na projeção de Portugal no mundo. A sua ação confirma, com renovada atualidade, a célebre visão de Eça de Queiroz sobre a emigração como força civilizadora, demonstrando que o sucesso além-fronteiras pode — e deve — reverter em benefício do desenvolvimento, da coesão e da valorização do país de origem.